GISELE
Lidando com violação íntima no ambiente educacional
Tenho 25 anos e sou estudante do primeiro ano de Arquitetura. Sempre fui determinada, organizada e cheia de planos para o futuro. Entrei na universidade acreditando que aquele seria um espaço de crescimento, amadurecimento e construção de sonhos. No entanto, vivi uma situação de violação íntima dentro do ambiente acadêmico que alterou profundamente minha percepção de segurança e confiança.
Tudo aconteceu após a entrega de um trabalho em grupo. Um colega se ofereceu para revisar comigo alguns detalhes do projeto em uma sala quase vazia no final do período. No início, a conversa era normal. Mas, aos poucos, a postura dele mudou. Ele começou a se aproximar demais, invadindo meu espaço físico de forma desconfortável.
Quando tentei manter distância, ele tocou meu braço sob o pretexto de “mostrar algo na tela”. O toque permaneceu mais tempo do que o necessário. Afastei discretamente, mas ele voltou a tocar, desta vez segurando meu pulso como se quisesse impedir que eu me afastasse. Eu disse que precisava ir embora. Ele riu, como se estivesse exagerando.
Em seguida, colocou a mão nas minhas costas, deslizando para uma área mais íntima do meu corpo, ignorando completamente minha rigidez e meu silêncio. Meu corpo travou. Eu tentei empurrar levemente para criar espaço, mas ele interpretou aquilo como resistência sem importância. Aproximou o rosto do meu, tentou me beijar e insistiu mesmo quando virei o rosto.
Eu disse “para” mais de uma vez. Minha voz saiu baixa, trêmula. Ele minimizou, dizendo que eu estava sendo dramática. Suas mãos continuavam insistentes, tentando me puxar mais perto, segurando minha cintura com força suficiente para me impedir de sair imediatamente.
Consegui me soltar quando ouvi passos no corredor e aproveitei o momento para sair rapidamente da sala. Ele ainda disse, em tom frio, que eu não deveria “criar problema” por algo que, segundo ele, “não foi nada demais”.
Nos dias seguintes, tentei racionalizar o ocorrido. Perguntei a mim mesma se deveria ter reagido de forma diferente, se deveria ter gritado, se deveria ter sido mais firme. Mas, no fundo, eu sabia: meus limites foram claramente ignorados. Minha negativa foi desconsiderada. Meu corpo foi tratado como algo disponível, não como algo que exige consentimento.
Depois desse primeiro episódio em que ele ultrapassou meus limites físicos, eu imaginei que o afastamento resolveria. Passei a evitá-lo, a não permanecer sozinha em salas e a sair sempre acompanhada. Mas ele começou a agir de outra forma.
Percebi que ele me observava. Em sala, seus olhares eram fixos e prolongados. Quando eu mudava de lugar, ele também mudava. Se eu saía para o corredor, pouco depois ele aparecia. Aquela vigilância constante começou a me causar tensão. Eu sentia que estava sendo monitorada.
Houve um dia especialmente perturbador. Fui ao banheiro feminino rapidamente entre uma aula e outra. O corredor estava quase vazio. Entrei, tentando ser breve. Enquanto lavava as mãos, ouvi a porta se abrir de forma brusca. Ele entrou. Meu corpo gelou.
Ele fechou a porta e girou a chave. Disse que queria “conversar direito”, que eu estava evitando algo que, segundo ele, “também tinha sentido”. Aproximou-se rapidamente, reduzindo completamente o espaço entre nós.
Tentei manter distância, pedi para ele sair, disse que aquilo era errado. Ele ignorou. Tentou me segurar pelos braços e puxar meu corpo contra o dele. Insistia que eu não precisava ter medo, que ninguém precisava saber. Minha voz saiu trêmula, mas eu repetia que queria sair.
A situação durou poucos minutos, mas pareceu interminável. Consegui empurrá-lo com força suficiente para abrir espaço e destrancar a porta. Saí sem olhar para trás. Minhas mãos tremiam. Meu coração parecia explodir no peito.
Depois desse dia, o medo deixou de ser apenas desconforto — virou sensação constante de ameaça. Eu não me sentia mais segura em nenhum espaço da universidade. Comecei a evitar ficar sozinha, a calcular rotas, a antecipar possibilidades. Eu tinha receio de contar para alguém por que me sentia envergonhada e extremamente desconfortável. Achava que talvez as pessoas minimizassem e dissesem que é só alguém interessado, ou que seria coisa da minha cabeça.
O impacto emocional foi devastador. Passei a ter crises de ansiedade antes das aulas. Minha concentração caiu drasticamente. Sentia vergonha, culpa e um medo profundo de não ser acreditada. Parte de mim se perguntava se eu deveria ter denunciado imediatamente. Outra parte estava paralisada pelo receio das consequências.
A violação não foi apenas física — foi psicológica. Ele ignorou minha negativa, meu desconforto e minha autonomia. Fechar uma porta contra a minha vontade foi mais do que um gesto impulsivo: foi uma tentativa clara de controle e intimidação.
Com o passar das semanas, percebi que aquela experiência estava moldando minha identidade. Fiquei mais retraída, mais vigilante, menos confiante. Minha espontaneidade desapareceu. A universidade deixou de representar crescimento e passou a representar risco.
Conviver com a lembrança de uma situação assim dentro de um ambiente educacional não é apenas carregar um episódio doloroso — é enfrentar uma ruptura profunda na sensação de segurança, dignidade e controle sobre o próprio corpo.
Essa foi a experiência que Gisele viveu ao enfrentar uma violação íntima no ambiente educacional — um problema grave, muitas vezes silenciado por medo, vergonha ou pela dificuldade de denunciar alguém do próprio convívio escolar, mas que provoca impactos emocionais profundos, duradouros e, por vezes, invisíveis aos olhos de quem está de fora. Reconhecer esse tipo de situação é fundamental para romper o ciclo de abuso, intimidação e silêncio que frequentemente envolve esse comportamento e impede a vítima de buscar apoio.
No próximo conteúdo, você conhecerá aspectos essenciais sobre a violação íntima no ambiente educacional — como ela pode se manifestar, quais dinâmicas de poder costumam estar envolvidas e quais impactos emocionais e psicológicos pode desencadear — para compreender com seriedade a gravidade desse problema e reforçar a importância do consentimento, do respeito aos limites e da responsabilidade nas relações dentro do espaço escolar.