CONDUTA ATUAL
DO RAUL
Decidindo abraçar a mudança necessária
Viver um período escolar marcado por imposição física me colocou diante de um conflito interno silencioso e constante. No início, eu não conseguia perceber aquilo como um problema que pudesse me atingir diretamente. Acreditava que, permanecendo quieto, evitando confrontos e mantendo distância, eu não me tornaria alvo. Pensava que bastava ser discreto e focado nos estudos para atravessar aquela fase sem grandes impactos.
Com o passar do tempo, porém, comecei a sentir que algo estava fora do lugar. Eu evitava certos corredores, principalmente, o banheiro da escola e organizava meus horários tentando não cruzar com eles. Pequenas estratégias de autoproteção começaram a fazer parte da minha rotina, mesmo sem que nada tivesse acontecido diretamente comigo ainda.
Internamente, comecei a sentir ansiedade, alerta constante e uma sensação de vulnerabilidade que eu não conseguia explicar totalmente. A escola, que deveria ser um espaço de aprendizado e convivência saudável, passou a ser um ambiente onde eu precisava calcular cada movimento. Meu foco já não era apenas estudar, mas também evitar situações de risco.
A dinâmica mudou completamente depois daquele ocorrido no banheiro. Depois desse episódio, a escola deixou de ser apenas desconfortável e passou a ser um ambiente que me gerava medo real. Eu caminhava em estado de alerta constante. Evitava intervalos, diminuía interações e me mantinha sempre atento ao redor. A concentração nas aulas caiu, minha confiança diminuiu e a sensação de vulnerabilidade passou a fazer parte da rotina. Aos poucos, percebi que a agressão não tinha sido apenas física — ela estava afetando minha postura, minha espontaneidade e minha segurança interna.
Foi nesse momento de desgaste emocional e medo constante que pesquisei por ajuda e informações sobre essa situação e encontrei este conteúdo sobre imposição física e violência no ambiente educacional. Esse contato trouxe algo essencial: clareza e entendimento. Pela primeira vez, compreendi que nenhuma forma de agressão deve ser tolerada, que minha segurança precisa ser prioridade e que silêncio não é a única alternativa. Um ambiente educacional não deve ser assim!
As orientações me ajudaram a entender que, diante de situações assim, a primeira atitude é garantir a própria segurança. Aprendi que manter distância de pessoas desrespeitosas é uma medida estratégica e necessária. Também compreendi que utilizar uma comunicação firme e respeitosa pode ajudar a interromper comportamentos inadequados quando possível — mas que, em casos graves, é essencial buscar ajuda formal e denunciar.
Sendo assim, depois daquele ocorrido, o medo falava mais alto do que qualquer outra coisa. A ameaça que recebi ecoava na minha mente, e eu considerava permanecer em silêncio para evitar que a situação piorasse. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que fingir que nada havia acontecido não apagaria o que eu estava sentindo.
Nos dias seguintes, as dores físicas diminuíram, mas as marcas emocionais continuavam presentes. Meus pais tinham visto os hematomas, mas eu menti e falei que eu tinha caído na aula de educação física. Foi então que, três dias depois, eu tomei uma decisão difícil, mas extremamente importante: eu revelei para eles que eu tinha sido agredido. Não foi fácil. Eu senti vergonha, medo e insegurança, mas também senti que precisava parar de enfrentar aquilo sozinho. Ao saberem a verdade sobre as marcas, meus pais ficaram extremamente entristecidos e revoltados, pois eles compreenderam a gravidade da situação imediatamente.
Juntos, fomos até a delegacia registrar a ocorrência e esse foi um dos momentos mais difíceis — e ao mesmo tempo mais decisivos — da minha vida. Eu estava nervoso, mas também sentia que se eu continuasse calado e não tomasse medidas, isso poderia piorar. No dia seguinte a polícia foi na instituição para apurar os fatos. E eu e meus pais também fomos para que eu esclarecesse e mostrasse os hematomas. A direção chamou os responsáveis por cada um dos envolvidos, e medidas firmes foram tomadas.
Todos os alunos envolvidos foram afastados do colégio e receberam uma advertência formal e rígida: não será tolerada outra ocorrência de agressão contra outro estudante. Aquela postura firme deixou claro que violência não seria tolerada.
O que mais me marcou, porém, foi descobrir que eu não era o único. Outros alunos também pediram para ir até a diretoria para relatar que também sofreram agressões do mesmo grupo, mas haviam permanecido em silêncio por medo de represálias. Quando souberam que eu havia denunciado, sentiram-se encorajados a falar. Percebi que minha atitude não protegeu apenas a mim — ela abriu espaço para que outros também fossem ouvidos.
Recentemente, depois de 2 semanas, os meninos envolvidos voltaram à rotina da escola, algo que me deu pânico instantâneo. Continuei mantendo minhas estratégias de evitá-los e no decorrer dos dias eu percebi que eles não causavam mais aquele alvoroço de antes. Depois, descobri através de colegas que eles correm o risco de irem para Detenção Juvenil, caso desacatassem a ordem imposta. Isso me trouxe um certo alívio, mas eu também precisava me manter firme.
Com o tempo, essa mudança fortaleceu profundamente minha relação comigo mesmo. Entendi que pedir ajuda não é sinal de fraqueza, mas de maturidade. Aprendi que proteger minha integridade física e emocional é parte essencial do meu crescimento. Também compreendi que atitudes firmes podem transformar ambientes.
Hoje, sigo mais consciente dos meus direitos e mais atento à importância de promover interações respeitosas. Sei que a escola deve ser um espaço seguro para todos. Ressignificar essa experiência me permitiu amadurecer, fortalecer minha coragem e entender que quebrar o silêncio foi a atitude mais necessária — não apenas para mim, mas para muitos outros que também precisavam ser protegidos.
Crescer e amadurecer não é um caminho rápido nem sempre leve — mas é um dos mais valiosos que você pode escolher. Haverá dias de força e dias de cansaço, momentos de clareza e momentos de dúvida. E tudo bem.
O que importa é não caminhar no escuro por falta de conhecimento. Buscar compreender a si mesmo(a) e a vida é como acender luzes no seu próprio caminho — você passa a enxergar onde está, para onde pode ir e como chegar lá.
Assim esta pessoa que, ao compreender profundamente a realidade em que estava, percebeu que mudar não era apenas uma opção, mas uma necessidade para viver melhor — e decidiu dar os passos necessários —, você também pode transformar o rumo da sua história.
E, sempre que precisar, saiba que este espaço estará aqui para lembrar que você não está sozinho(a) nessa jornada. Que existe, sim, um jeito de construir uma vida mais firme, consciente e satisfatória, passo a passo, no seu ritmo, mas com a certeza de que é possível.