CONDUTA ATUAL
DA GISELE
Decidindo abraçar a mudança necessária
Depois de alguns dias vivendo em estado constante de alerta, eu percebi que não era apenas o medo que estava me afetando — era o silêncio. Cada dia que eu fingia normalidade, algo dentro de mim se enfraquecia. Eu tentava seguir a rotina, mas a sensação de insegurança me acompanhava em cada corredor.
Foi nesse período que decidi buscar por ajuda sobre este tipo de situação e conheci este conteúdo sobre violação íntima no ambiente educacional. Pela primeira vez, eu li algo que descrevia exatamente o que eu tinha vivido, sem minimizar, sem relativizar e sem transferir culpa para a vítima. Aquilo trouxe clareza.
A primeira orientação foi decisiva para mim: ter plena consciência de que aquela violação era inaceitável em qualquer ambiente educacional. Eu precisava parar de me questionar se estava exagerando. Meu “não” foi ignorado. Meu espaço foi invadido. Meu corpo foi desrespeitado. Não havia dúvida.
Com essa compreensão mais firme, enfrentei meu primeiro grande conflito interno: denunciar ou permanecer em silêncio. O medo das consequências ainda existia. Eu temia julgamentos, comentários e possíveis retaliações. Mas também compreendi algo essencial: o silêncio não me protegeria.
Decidi contar para meus pais. Foi uma conversa difícil. Eu tremia enquanto falava, mas, ao terminar, senti um alívio profundo. Eles não duvidaram de mim. Não minimizaram. Pelo contrário, demonstraram apoio imediato e firmeza.
Seguindo a segunda orientação, tomei medidas formais. Registramos a ocorrência e comunicamos oficialmente a instituição. Eu também relatei com detalhes o que havia acontecido, inclusive o episódio no banheiro. Não foi fácil reviver aquilo, mas entendi que proteger minha integridade exigia coragem prática.
Ao mesmo tempo, coloquei em prática outra orientação essencial: priorizar minha segurança. Passei a não circular sozinha, reorganizei horários e solicitei medidas internas de proteção. A instituição iniciou um processo de apuração.
Também construí uma rede de apoio. Contei para uma amiga próxima e busquei acompanhamento psicológico. Eu precisava fortalecer minha estabilidade emocional. Percebi que enfrentar algo assim não deve ser um processo solitário.
Manter distância absoluta dele tornou-se uma regra inegociável. Bloqueei qualquer possibilidade de contato. Solicitei formalmente que ele não tivesse proximidade em atividades acadêmicas. Essa decisão foi necessária para preservar minha estabilidade.
Houve dias difíceis. Reviver a situação durante o processo institucional me trouxe ansiedade. Mas, diferente de antes, eu já não estava paralisada. Eu estava agindo.
Com o andamento das investigações, medidas disciplinares foram aplicadas. A instituição deixou claro que condutas dessa natureza não seriam toleradas. Saber que houve consequências trouxe uma sensação de justiça e proteção.
Durante esse período, também considerei a possibilidade de encerrar minha matrícula. Avaliei seriamente essa alternativa. No entanto, após as medidas de segurança implementadas, optei por permanecer. Eu não queria que a violação definisse o fim do meu projeto acadêmico.
Com o tempo, comecei a perceber uma transformação interna profunda. Eu não era mais a estudante retraída e dominada pelo medo. Eu havia aprendido algo essencial: proteger meus limites é uma responsabilidade minha, e exigir respeito é um ato de maturidade.
Hoje, sigo meus estudos com mais consciência. Ainda existem lembranças difíceis, mas elas não definem minha identidade. Eu compreendi que violação íntima nunca é “exagero”, nunca é “mal-entendido” e nunca é “algo pequeno”.
Quebrar o silêncio foi a decisão mais importante que tomei. Não apenas por mim — mas para reafirmar que nenhum ambiente educacional deve tolerar a invasão da dignidade de alguém.
Essa experiência me ensinou algo profundo: maturidade não é suportar em silêncio.
É agir com firmeza quando seus limites são ultrapassados.
Crescer e amadurecer não é um caminho rápido nem sempre leve — mas é um dos mais valiosos que você pode escolher. Haverá dias de força e dias de cansaço, momentos de clareza e momentos de dúvida. E tudo bem.
O que importa é não caminhar no escuro por falta de conhecimento. Buscar compreender a si mesmo(a) e a vida é como acender luzes no seu próprio caminho — você passa a enxergar onde está, para onde pode ir e como chegar lá.
Assim esta pessoa que, ao compreender profundamente a realidade em que estava, percebeu que mudar não era apenas uma opção, mas uma necessidade para viver melhor — e decidiu dar os passos necessários —, você também pode transformar o rumo da sua história.
E, sempre que precisar, saiba que este espaço estará aqui para lembrar que você não está sozinho(a) nessa jornada. Que existe, sim, um jeito de construir uma vida mais firme, consciente e satisfatória, passo a passo, no seu ritmo, mas com a certeza de que é possível.